Espirro Solar
No deserto silencioso de pulsares frios e gelados o Sol
segue o seu queimar perpétuo, aparência humana de
eternidade, envolvido por uma aragem que por vezes lhe
provoca arrepios.
Desta vez espirra. Rebentam-se-lhe os tímpanos,
desintegra-se e fica reduzido a um fogacho solto pela
língua infernosa.
A pequena bola de fogo lança-se qual foguetão
ziguezagueante...
Perdida, embate na Terra, passa a estratosfera, rasga uma
linha luminosa na australásia, risca o pôr do sol no meio
atântico e com ciência e precisão chega ao continente onde
o vinho tansborda a música arranha e o fogo de artíficio
confunde as mentes incautas...
A nossa bola de fogo, reduzida a uma faísca ígnea, segue
serena e agora plana... até se confundir num estalar de
foguetes e fogo preso na madrugada de uma terra perdida na
rudeza da montanha.
Insinua-se por uma janela aberta ao calor estival e
encontra um coto frio, usadíssimo, de pavio preto,
mascarado de pseuda-apolínea sabedoria.
Devolve-lhe vida dionisíaca..., e a vela começa a queimar,
queima, queima
e a cera derrete
e a vela queima e vai acabando
acaba mas não apaga
vai queimando
passa o tampo espesso da mesa de madeira
fura o chão duro e frio de pedra mármore suja
e em baixo encontra água
apagou-se!
?