MERGULHO
Um, dois, três e salto de chamada... Lanço-me no ar em
plena queda livre, plano o vento rumo ao chão duro. O ar
quente passa-me pelas orelhas e faz aquele ruído de motor
de avião a roncar ao longe.
As luzes dos carros lá em
baixo dizem-me que o dia já fechou. Os olhos fecham-se em
lágrimas empurradas pela força da pressão da
deslocação.
O burburinho da cidade cresce para um
murmúrio cada vez mais estridente, sem nexo.
O
alcatrão negro aproxima-se, mas está ali um carro...
arranca e deixa-me livre um espaço.
Consegui manter
uma posição vertical e os braços abertos esticados
juntam-se agora para baixo, por cima da
cabeça.
Mergulho no pavimento.
Os braços
desintegram-se. Os ombros desconchavados rasgam o tronco
até à anca e riscam faíscas pelas pernas até aos
pés.
Liberta-se um ruído chiado de guilhotina. O
estalo da lâmina fria solta por fim a cabeça imulada numa
bola de fogo.